domingo, 11 de outubro de 2009

O terror que matura

I
Oriunda de respeitável progenitura:
A mãe, professora de corte e costura;
O pai, escriturário na magistratura,
Era, ela, uma formosura,
Uma pintura,
Digna de figurar numa gravura,
Ou numa xilogravura,
Daquelas com moldura,
Trabalhada em artística ranhura.
Mediana estatura,
Cabelos pretos, sem tintura,
Dentes, perfeitos, uma alvura;
Sorriso, sem amargura,
Franco, aberto, uma quentura;
A mirada, uma brandura,
Muito límpida, muito pura,
De olhos de jabuticaba, uma pretura;
E um poço de ternura!
Ah! E a cintura!
Parecia duma tanajura...
Educação, nem falar. Que finura!
Dada a não pouca leitura,
De sutil e elevada literatura,
E um dedilhar, sem partitura,
Além de se dedicar à feitura
De origami, de dobradura.
E, no jardim, à floricultura,
Onde, às vezes, ouvia o canto da saracura.

II
Ele, era só feiúra,
Como uma caricatura.
Duma lividez, duma transparente brancura
Num monte de ossatura
Como se filho fosse de alguém de média estatura,
Mas de não muita largura.
E do Cavaleiro da Triste Figura
Àquele que, até com moinhos, mostrou bravura
Não tendo como vestidura
A respectiva armadura.
Além disso, morando numa lonjura.
E, mais, um escrachado caradura
De péssima postura,
Ou melhor, somente impostura:
Noites a fio, jogava, com fundura,
Em busca de fácil fartura;
À mão, um copo daquela bebida de lúpulo, de levedura
E um eterno cigarro, alterando, dos lábios, a comissura.
Receitas, infalíveis, de fazer estrago em qualquer criatura.
Tal proceder, sem dúvida, merecia ampla censura.
Não confundir com àquela do tempo da ditadura,
Quando até se usou a indefectível tortura,
Nos governos da chamada linha dura,
Bem antes do que se convencionou chamar Abertura.
O salário, parco, da Prefeitura,
Dum trabalho que exercia com sinecura,
Na base de quem não se apura,
Obviamente, redundava numa apertura.
As dívidas, não poucas, proveniente de mordedura,
Mesmo que firmadas numa caprichada escritura,
Fatalmente seguiam o destino da pendura
Que postergava, com ensaboadura,
Para uma época futura
E que, da memória, apagava com uma varredura.
De inteligência, não era nenhuma cavalgadura,
Daquelas que só falta a ferradura.
Era capaz de se pôr a falar, com desenvoltura,
Sobre, do quadrado, a curvatura
Ou, da circunferência, a quadratura.
E, se porventura,
Cometia alguma outra loucura
De imitar, de alguém, a assinatura,
Perfeita e sem rasura,
Em cheque, promissória ou fatura,
Fruto de condenável urdidura,
Resultava, se descoberto, nessa amargura
De ter que conseguir um alvará de soltura,
Alegando, ao delegado, tratar-se duma travessura
E no seu ilibado currículo, uma simples arranhadura;
Que não tinha intenção de viver numa cela escura
E que, afinal, toda a sua vida, agira com extrema lisura.

III
Essa atitude devassa, que o estado físico tritura
E o bolso, a conta corrente do banco, perfura,
Para ele, era adrenalina total, uma aventura,
Que foi obrigado de encerrar, uma fissura,
Quando sua saúde se deteriorou e sofreu uma ruptura.
Logo, ele, que nunca tivera um resfriado, ou uma rasgadura
E, muito menos, alguma forma de rendidura,
Parecendo, tudo, praga, maldição ou esconjura,
De nada adiantando os santos invocados em benzedura.
É que numa amorosa tertúlia, sobreveio uma velhice prematura
Àquela que deixa, um, e a parceira, em desventura,
E provoca na alma e no ego profunda machucadura.
Pouco antes, já vinha sentindo, no estômago, uma queimadura,
Somado a um mal-estar, a uma teimosa tontura,
Que o deixava, por um momento, com a vista obscura
E com a possibilidade de cair e sofrer uma fratura.
O médico, amigo desde a infância, adepto da natura,
Pespegou-lhe um susto, numa sincera e repreensiva secura:
"Não se trata de querer que você viva numa clausura.
No entanto, se dessa vida desregrada não abjura;
Se continuar nessa farra, para você uma gostosura;
Não se livrar do vício, dessa imbecil escravatura,
O teu amanhã nem eu nem ninguém te assegura,
Pois você, bem sabe, está cavando a própria sepultura.
Entretanto, preste atenção, você facilmente se cura:
Primeiro, tem que parar de comer fritura
Que absorve rios de gordura;
Não fumar, nem beber, dormir cedo, nada de diabrura;
Tem que consumir muita verdura,
Muita fibra e fruta não ácida, madura;
Nada de doce tipo quindim ou rapadura,
Se não vai ter - já, já - de usar dentadura".
Os amigos acharam tudo aquilo uma frescura,
E que a prescrição parecia mais uma absurda propositura,
Ponderando que uma vida, assim, nem santo atura.
De início, o reproche, ele classificou de grossura,
Mas, apavorado, ou como dizem os italianos, numa "paúra",
Resolveu mudar de vida, para uma mais segura.
Indubitavelmente, foi um tento de bela feitura:
Má alimentação, vícios e toda essa nomenclatura
Foi mudada com força de vontade de quem tem envergadura;
Passou a estudar e ler livros de grossa brochura
E a escutar música clássica e popular de fina tessitura,
Já que havia desenvolvido o bom gosto, por aquela altura;
Optou em fazer uma faculdade, uma Licenciatura,
Visando o almejado canudo, numa cerimônia de formatura.
Chegou até a pensar em Engenharia ou Arquitetura,
Sem descartar Agronomia, dado a discorrer sobre agricultura.
Melhorou o visual, que a gente, a si mesmo, augura:
Cabelo e barba aparados, dois banhos diários, total limpadura;
Entrou numa academia de ginástica para fazer musculatura
Com a intenção de ganhar peso, conforme, por aí, se assegura
E ficar com o tórax como os lutadores na era da gladiatura;
Passou a freqüentar ambientes de pessoas de boa catadura,
Onde o gosto apurado, aliado à boa educação, sempre fulgura;
A usar ternos com tecidos de excelente textura
E gravata, com grife, em camisa de abotoadura;
Pagou os credores, que não desgrudavam como atadura,
E, mais adiante, comprou, do ano, uma possante viatura,
Bem espaçosa, "nada de apertos, nada de miniatura".
Também, numa pechincha, um apartamento, não de cobertura,
Mas tendo sacada com churrasqueira, para grelhados e assadura.
E suíte com hidromassagem, portaria e tetra-chave na fechadura,
Em imóvel localizado num terreno ajardinado, numa planura.
O pagamento: uma entrada, mais 20 anos, com juros da Lei da Usura,
Aproveitando um desconto graças a famosa Lei da Oferta e da Procura,
Àquela, que político promete revogar ao defender sua candidatura.
Decorou, tudo, com móveis em cedro, com caprichada entalhadura
E tapetes, feitos à mão, de razoável espessura.

IV
Nessa história, em condições normais de pressão e temperatura,
Deveria haver, com a jovem do início, alguma relação ou ligadura.
Mas, não. Ela só foi aqui lembrada por sua beleza, sua candura.
Seu sorriso, seu olhar, sua sensibilidade, sua doçura.
Bem! Cada um seguiu o seu destino, sem se cruzar, sem mistura,
Embora, o mesmo juiz de paz ter efetuado a legal lavratura.
E que passaram, em épocas distintas, a lua-de-mel em Cascadura,
Onde, anos após, retornariam para passar alguns dias em vilegiatura.
Ele, redimido, havia encontrado uma companheira, uma lhanura,
Gentilíssima, amável, cortês, sem um pingo de desmesura.
E ela, um companheiro, muito sério, trabalhador, uma polidura,
Um estudioso aplicado, um autodidata em matéria de cultura.
Obviamente, de todos as partes envolvidas, de amor eterno, muita jura,
Que, nesses casos, quase sempre, ao pé de ouvido se murmura
E, com ardor, se realizam num colóquio de extrema fervura.
Hoje, vivem felizes, com filhos, produto duma fértil semeadura
Numa paixão que, mesmo com a crise econômica, ainda perdura

Juca

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