quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

RUMOREJANDO (Com Apenas Duas Constatações).

ConstataçãoI

TERROR QUE MATURA

Oriunda de respeitável progenitura:

A mãe, professora de corte e costura;

O pai, escriturário na magistratura,

Era, ela, uma formosura,

Uma pintura,

Digna de figurar numa gravura,

Ou numa xilogravura,

Daquelas com moldura,

Trabalhada em artística ranhura.

Mediana estatura,

Cabelos pretos, sem tintura,

Dentes, perfeitos, uma alvura;

Sorriso, sem amargura,

Franco, aberto, uma quentura;

A mirada, uma brandura,

Muito límpida, muito pura,

De olhos de jabuticaba, uma pretura;

E um poço de ternura!

Ah! E a cintura!

Parecia duma tanajura...

Educação, nem falar. Que finura!

Dada a não pouca leitura,

De sutil e elevada literatura,

E um dedilhar, sem partitura,

Além de se dedicar à feitura

De origami, de dobradura.

E, no jardim, à floricultura,

Onde, às vezes, ouvia o canto da saracura.

Ele era só feiúra,

Como uma caricatura.

Duma lividez, duma transparente brancura

Num monte de ossatura

Como se filho fosse de alguém de média estatura,

Mas de não muita largura.

E do Cavaleiro da Triste Figura

Àquele que, até com moinhos, mostrou bravura

Não tendo como vestidura

A respectiva armadura.

Além disso, morando numa lonjura.

E, mais, um escrachado caradura

De péssima postura,

Ou melhor, somente impostura:

Noites a fio, jogava, com fundura,

Em busca de fácil fartura;

À mão, um copo daquela bebida de lúpulo, de levedura

E um eterno cigarro, alterando, dos lábios, a comissura.

Receitas, infalíveis, de fazer estrago em qualquer criatura.

Tal proceder, sem dúvida, merecia ampla censura.

Não confundir com àquela do tempo da ditadura,

Quando até se usou a indefectível tortura,

Nos governos da chamada linha dura,

Bem antes do que se convencionou chamar Abertura.

O salário, parco, da Prefeitura,

Dum trabalho que exercia com sinecura,

Na base de quem não se apura,

Obviamente, redundava numa apertura.

As dívidas, não poucas, proveniente de mordedura,

Mesmo que firmadas numa caprichada escritura,

Fatalmente seguiam o destino da pendura

Que postergava, com ensaboadura,

Para uma época futura

E que, da memória, apagava com uma varredura.

De inteligência, não era nenhuma cavalgadura,

Daquelas que só falta a ferradura.

Era capaz de se pôr a falar, com desenvoltura,

Sobre, do quadrado, a curvatura

Ou, da circunferência, a quadratura.

E, se porventura,

Cometia alguma outra loucura

De imitar, de alguém, a assinatura,

Perfeita e sem rasura,

Em cheque, promissória ou fatura,

Fruto de condenável urdidura,

Resultava, se descoberto, nessa amargura

De ter que conseguir um alvará de soltura,

Alegando, ao delegado, tratar-se duma travessura

E no seu ilibado currículo, uma simples arranhadura;

Que não tinha intenção de viver numa cela escura

E que, afinal, toda a sua vida, agira com extrema lisura.

Essa atitude devassa, que o estado físico tritura

E o bolso, a conta corrente do banco, perfura,

Para ele, era adrenalina total, uma aventura,

Que foi obrigado de encerrar, uma fissura,

Quando sua saúde se deteriorou e sofreu uma ruptura.

Logo, ele, que nunca tivera um resfriado, ou uma rasgadura

E, muito menos, alguma forma de rendidura,

Parecendo, tudo, praga, maldição ou esconjura,

De nada adiantando os santos invocados em benzedura.

É que numa amorosa tertúlia, sobreveio uma velhice prematura

Àquela que deixa, um, e a parceira, em desventura,

E provoca na alma e no ego profunda machucadura.

Pouco antes, já vinha sentindo, no estômago, uma queimadura,

Somado a um mal-estar, a uma teimosa tontura,

Que o deixava, por um momento, com a vista obscura

E com a possibilidade de cair e sofrer uma fratura.

O médico, amigo desde a infância, adepto da natura,

Pespegou-lhe um susto, numa sincera e repreensiva secura:

"Não se trata de querer que você viva numa clausura.

No entanto, se dessa vida desregrada não abjura;

Se continuar nessa farra, para você uma gostosura;

Não se livrar do vício, dessa imbecil escravatura,

O teu amanhã nem eu nem ninguém te assegura,

Pois você, bem sabe, está cavando a própria sepultura.

Entretanto, preste atenção, você facilmente se cura:

Primeiro, tem que parar de comer fritura

Que absorve rios de gordura;

Não fumar, nem beber, dormir cedo, nada de diabrura;

Tem que consumir muita verdura,

Muita fibra e fruta não ácida, madura;

Nada de doce tipo quindim ou rapadura,

Se não vai ter - já, já - de usar dentadura".

Os amigos acharam tudo aquilo uma frescura,

E que a prescrição parecia mais uma absurda propositura,

Ponderando que uma vida, assim, nem santo atura.

De início, o reproche, ele classificou de grossura,

Mas, apavorado, ou como dizem os italianos, numa "paúra",

Resolveu mudar de vida, para uma mais segura.

Indubitavelmente, foi um tento de bela feitura:

Má alimentação, vícios e toda essa nomenclatura

Foi mudada com força de vontade de quem tem envergadura;

Passou a estudar e ler livros de grossa brochura

E a escutar música clássica e popular de fina tessitura,

Já que havia desenvolvido o bom gosto, por aquela altura;

Optou em fazer uma faculdade, uma Licenciatura,

Visando o almejado canudo, numa cerimônia de formatura.

Chegou até a pensar em Engenharia ou Arquitetura,

Sem descartar Agronomia, dado a discorrer sobre agricultura.

Melhorou o visual, que a gente, a si mesmo, augura:

Cabelo e barba aparados, dois banhos diários, total limpadura;

Entrou numa academia de ginástica para fazer musculatura

Com a intenção de ganhar peso, conforme, por aí, se assegura

E ficar com o tórax como os lutadores na era da gladiatura;

Passou a freqüentar ambientes de pessoas de boa catadura,

Onde o gosto apurado, aliado à boa educação, sempre fulgura;

A usar ternos com tecidos de excelente textura

E gravata, com grife, em camisa de abotoadura;

Pagou os credores, que não desgrudavam como atadura,

E, mais adiante, comprou, do ano, uma possante viatura,

Bem espaçosa, "nada de apertos, nada de miniatura".

Também, numa pechincha, um apartamento, não de cobertura,

Mas tendo sacada com churrasqueira, para grelhados e assadura.

E suíte com hidromassagem, portaria e tetra-chave na fechadura,

Em imóvel localizado num terreno ajardinado, numa planura.

O pagamento: uma entrada, mais 20 anos, com juros da Lei da Usura,

Aproveitando um desconto graças a famosa Lei da Oferta e da Procura,

Àquela, que político promete revogar ao defender sua candidatura.

Decorou, tudo, com móveis em cedro, com caprichada entalhadura

E tapetes, feitos à mão, de razoável espessura.

Nessa história, em condições normais de pressão e temperatura,

Deveria haver, com a jovem do início, alguma relação ou ligadura.

Mas, não. Ela só foi aqui lembrada por sua beleza, sua candura.

Seu sorriso, seu olhar, sua sensibilidade, sua doçura.

Bem! Cada um seguiu o seu destino, sem se cruzar, sem mistura,

Embora, o mesmo juiz de paz ter efetuado a legal lavratura.

E que passaram, em épocas distintas, a lua-de-mel em Cascadura,

Onde, anos após, retornariam para passar alguns dias em vilegiatura.

Ele, redimido, havia encontrado uma companheira, uma lhanura,

Gentilíssima, amável, cortês, sem um pingo de desmesura.

E ela, um companheiro, muito sério, trabalhador, uma polidura,

Um estudioso aplicado, um autodidata em matéria de cultura.

Obviamente, de todas as partes envolvidas, de amor eterno, muita jura,

Que, nesses casos, quase sempre, ao pé de ouvido se murmura

E, com ardor, se realizam num colóquio de extrema fervura.

Hoje, vivem felizes, com filhos, produto duma fértil semeadura

Numa paixão que, mesmo com a crise econômica, ainda perdura.

Constatação II

RECIPROCIDADE

Cabisbaixo, desceu do ônibus. Caminhou em direção a casa. Havia sido dispensado do emprego. O Departamento de Pessoal alegou contenção de despesas. Ele sabia que era pela inconstância da sua assiduidade. Tudo, por causa de sua saúde frágil que o mantinha por dias na cama. Já estava aposentado. No entanto, o emprego de distribuir cartão de controle, na entrada e na saída de um supermercado, ajudava a melhorar o que recebia do Instituto de Aposentadoria. Ainda que houvesse contribuído para se aposentar com oito salários mínimos, nunca conseguiu entender porque recebia menos de quatro. Um cachorro se pôs a segui-lo. Parou. O cachorro também, olhando para ele com olhos meigos e sacudindo o rabo. Era um cachorro velho. “Velho não tem vez”, pensou. Provavelmente tinha recentemente sido posto na rua pelos seus donos, porque não estava muito magro. Época de férias aumenta o número de cachorros abandonados. Ficou enternecido. Ponderou: “Pelo menos tem quem demonstre apreço por mim”. Vivia sozinho. A mulher, de há muito, já partira, segundo o padre que dera a extrema unção, para junto de Deus. Os filhos, um casal, se dedicavam as suas próprias famílias. Ultimamente, esquecendo ou não se lembrando dele. Salvo em uma ou outra rara ocasião, através de um cartão postal. Ambos viviam fora do país. Haviam partido para a Nova Zelândia. Como outros tantos 160.000 jovens, no último ano, emigraram. Em busca de emprego. Aqui, nem pensar. A filha limpava casas e ganhava razoavelmente bem. Seu marido passeava cachorros. Tinham um garoto de um ano que achava ser parecido com ele. Pena que não pudesse carregá-lo no colo. Mais tarde, brincariam juntos. O filho lavava carros; a mulher trabalhava de atendente numa loja de fotografias. Todos tinham curso superior. Intimamente, ainda que sentindo aquele aperto no coração por estar longe dos filhos, estava satisfeito que estivessem longe da violência e da corrupção que grassava no país. Olhou novamente para o cachorro que não desgrudava os olhos dele. Lera em algum lugar: quem vive sozinho é muito recomendável ter um bicho de estimação. Rememorou que quando menino quis um cachorro, mas a mãe não permitiu porque achava que ia sujar a casa.

Quando adolescente ele estudava e a mãe teve que ir trabalhar fora porque o pai abandonara a família e sumira para sempre. Adorava o pai, mas, por não perdoá-lo, nunca se preocupou em procurá-lo. Naquela vez, também não daria para ter um cachorro porque ele não ia querer que o cachorro ficasse só.

Quando casou, foi morar em um pequeno apartamento alugado e quem ficou de síndico não permitia nem cães, nem gatos nos apartamentos.

Quando foram morar numa casa, o casal trabalhava fora, E, como os filhos estudavam em tempo integral, tampouco daria para deixar em casa um cachorro, sozinho, sem atenção. Lembrou-se de uma canção de um uruguaio que dizia: “Claro que quis querer, mas não pôde poder”.

Com a aposentadoria daria para os dois viverem. Ele e o cachorro. Morava numa espécie de meia-água, nos fundos de um terreno que havia adquirido por preço compatível com seus ganhos. Construíra uma casinha de madeira nos fundos, para algum dia construir, na frente, uma de alvenaria. Os filhos, que estudaram em faculdade particular, por não lograrem classificação na faculdade estatal, haviam consumido grande parte do dinheiro para a casa de alvenaria. A outra parte fora consumida com a doença da mulher e com ele próprio numa operação de ponte safena. Nos dois casos, o Plano de Saúde não cobriu em sua totalidade e havia os remédios cada vez mais caros. Fazia, como tantos, sua fé na Quina, jogando nos bolões. Além de aumentar a chance, pensava que ganhar uma bolada, sozinho, correria o risco de ser seqüestrado. Uma vez, havia sido abordado, não longe do banco onde eram creditados a sua aposentadoria e o salário, por dois sujeitos. Eles, demonstrando total ignorância, tentavam passar-lhe o conto do bilhete premiado. Sem dúvida, dois artistas pela representação de ingenuidade e no falar manso. Alegara uma desculpa e tratara de despistá-los. Nunca quis fazer queixa à polícia com medo de represália. E, também, por achar que não ia levar a nada. Se aqueles tipos queriam o pouco dinheiro dele, imagine uma bolada. Chegaram, ele e o cachorro, no portão de casa. Chamou “vem” para o cachorro entrar. Foi seguido na mesma hora. Falou em voz alta: “Vou preparar algo para nós comermos. Vou te dar uma carninha que guardei para minha janta e fazer uma polenta pra nós. E vou preparar uma cama para você descansar”. Encheu um recipiente com água que o cachorro bebeu por inteiro. Deu vazão a sua ternura acumulada. Afagou sua cabeça; o cão lambeu a sua mão. Falou com muita convicção: “Como nos contos infantis, mano velho, de ora em diante, seremos felizes para sempre”...


4 comentários:

DJALMA FILHO (twitter @djalmafilho68) disse...

Inspiradíssima a prosa poética deste rumorejando, amigo Juca.

Marina da Silva disse...

Juca,
Que bom te ler! Tava passada e mordida com as tragédias nestas terras de bananas e hoje sentei aqui pra rir e...que coisa linda! A primeira me fez sorrir e lembrar a "Quadrilha" de Drummond e a segunda tô sem palavras, só sentimentos e uma coisa boa no coração! Amei as duas constatações! Parabéns. Bjus. Marina

Juca disse...

Obrigado, gente boa.

Amanda disse...

Muito legal, realmente adorei.