quarta-feira, 11 de abril de 2012

RUMOREJANDO

PEQUENAS CONSTATAÇÕES, NA FALTA DE MAIORES.

Constatação I (Quadrinha para ser recitada contra nossos parceiros de truco).
Truquei em cima do gato dos adversários
Porque tínhamos as outras três manilhas
Eles mandaram jogar meio temerários.
De raiva, tendo dois três, ficaram umas pilhas.

Constatação II
Com o livro didático, distribuído pelo MEC, que defende o uso da "linguagem popular", com erros grosseiros de português, não estaremos longe de, numa dúvida, não precisar mais a consulta de dicionários. Quem é mesmo o pai dos burros?

Constatação III
Deu no site da Globo: “Funkeira põe silicone no bumbum e vive drama: ‘Shorts não me servem’”. Taí uma notícia de transcendental importância para o futuro da Humanidade.

Constatação IV
Um governante
Que não resiste
Nem por um instante
A tentação
De se apossar
De algum reles trocado
Deveria ir para a prisão
E lá ficar
Igual
Como qualquer
Outro ladrão
Sem mulher,
Sem televisão,
Sem jornal
E não poder reclamar
Ficando todo tempo calado.

Constatação V
Rico é renitente; pobre, é cabeça-dura.

Constatação VI (Quadrinha para ser recitada em festinha infantil de menina).
Ganhei dois ovinhos de chocolate
Que estavam numa cestinha
Comi tudo, sem oferecer, sozinha.
E o meu cachorro quando não ganha, late.

Constatação VII
Deu na mídia, mais precisamente no site do Estadão: “Cerca de 75% dos brasileiros jamais pisaram em uma biblioteca, diz pesquisa do Instituto Pró-Livro que mostra que 71% da população têm fácil acesso a uma biblioteca”. Comentário inocente e educado de Rumorejando: “Vige!”.

Constatação VIII
Também deu na mídia, mais precisamente no site da Globo: “Adriane Galisteu prestigia festa de um amigo em São Paulo, mas vai com a camisa furada”. Taí mais uma notícia transcendental para o futuro de nossa pobre Humanidade. Vige!

Constatação IX
Para este assim chamado escriba que considera o Estadão o jornal mais sério no Brasil, independente da sua tradicional ideologia, e a Globo o site mais apelativo do Brasil que parece não ter ideologia alguma, é muito sintomático as preocupações dos dois órgãos de divulgação. Vige!

Constatação X (Quadrinha, para não desacostumar, ainda que passível de descrença).
Viajar é muito recomendável
Dependendo do lugar onde se vá.
Também é muito agradável
Assistir os jogos do meu Paraná.

Constatação XI (Via pseudo-haicai).
Postei uma carta no correio.
Esperei, esperei a resposta,
Mas ela não veio.

Constatação XII
Perguntou um velhinho para outro: -“Do que morreu o nosso amigo João?”
Respondeu o velhinho perguntado para o velhinho perguntador: -“De falência progressiva dos órgãos”.
–“Mas eu nunca ouvi falar nisso. Eu sempre ouvi falar em ‘falência múltipla dos órgãos’”.
–“Eu também. Mas o João sempre dizia que um determinado órgão foi o primeiro a morrer. E depois ele tirou a vesícula e em seguida colocou um marca-passo e assim sucessivamente”.
-“Ah bom, quer dizer ah ruim, quer dizer...”

Constatação XIII (Ah, aí é diferente! Diferente?)
A Justiça é empírica. E pior: Aos amigos tudo; aos indiferentes a Lei; aos inimigos porrada. Ela diz que ninguém é obrigado a produzir prova contra si mesmo e por isto o bafômetro não é obrigatório. Dúvida crucial: O fato de um homem se negar a fazer um teste de DNA é considerado confissão de paternidade. Mas se ele fizer o teste, não estaria produzindo provas contra si mesmo? Um réu, para qualquer tipo de crime, que confesse o ato também não estaria produzindo prova contra si mesmo?

Constatação XIV
É sabido pelos parcos leitores de Rumorejando e do meu livro Rimas Primas & Outras Constatações que este assim chamado escriba sempre considerou o seu guru Millôr Fernandes, que veio recentemente a falecer. Alguns amigos manifestaram o seu pesar como se Millôr fosse meu parente. Efetivamente, sendo meu guru, eu o considerava como tal. Acompanhei os escritos de Millôr Fernandes desde o tempo da revista O Cruzeiro. Transcrevo uma poesia do Millôr, de um dos seus inúmeros livros, que considerei antológica. Nela também está representada toda a sua genialidade:
Poesia Matemática
Millôr Fernandes

Às folhas tantas
do livro matemático
um Quociente apaixonou-se
um dia
doidamente
por uma Incógnita.
Olhou-a com seu olhar inumerável
e viu-a do ápice à base
uma figura ímpar;
olhos rombóides, boca trapezóide,
corpo retangular, seios esferóides.
Fez de sua uma vida
paralela à dela
até que se encontraram
no infinito.
"Quem és tu?", indagou ele
em ânsia radical.
"Sou a soma do quadrado dos catetos.
Mas pode me chamar de Hipotenusa."
E de falarem descobriram que eram
(o que em aritmética corresponde
a almas irmãs)
primos entre si.
E assim se amaram
ao quadrado da velocidade da luz
numa sexta potenciação
traçando
ao sabor do momento
e da paixão
retas, curvas, círculos e linhas sinoidais
nos jardins da quarta dimensão.
Escandalizaram os ortodoxos das fórmulas euclidiana
e os exegetas do Universo Finito.
Romperam convenções newtonianas e pitagóricas.
E enfim resolveram se casar
constituir um lar,
mais que um lar,
um perpendicular.
Convidaram para padrinhos
o Poliedro e a Bissetriz.
E fizeram planos, equações e diagramas para o futuro
sonhando com uma felicidade
integral e diferencial.
E se casaram e tiveram uma secante e três cones
muito engraçadinhos.
E foram felizes
até aquele dia
em que tudo vira afinal
monotonia.
Foi então que surgiu
O Máximo Divisor Comum
freqüentador de círculos concêntricos,
viciosos.
Ofereceu-lhe, a ela,
uma grandeza absoluta
e reduziu-a a um denominador comum.
Ele, Quociente, percebeu
que com ela não formava mais um todo,
uma unidade.
Era o triângulo,
tanto chamado amoroso.
Desse problema ela era uma fração,
a mais ordinária.
Mas foi então que Einstein descobriu a Relatividade
e tudo que era espúrio passou a ser
moralidade
como, aliás, em qualquer
sociedade.

No meu livro Rimas Primas & Outras Constatações criei uma “Poesia” que transcrevo a seguir, agora, como uma homenagem póstuma a esse que eu considero uma das maiores, se não a maior, inteligência do Brasil:

“Poesia” matematicamente surrealista ou surrealisticamente matemática.
Para Millôr Fernandes, autor do antológico “Poesia Matemática

O sistema
Cartesiano
Ortogonal,
Não no plano,
Consequentemente,
Espacial,
Que sempre se cruzou
Na origem,
Se cumprimentou.
E também com um teorema,
Que por ali passou.
O eixo dos xis,
Como todo ano,
Se queixou,
Assaz infeliz,
De vertigem
Pela eterna posição
Horizontal;
O eixo dos ípsilon
Que, em condição
Normal
De pressão
E temperatura,
Nunca anda bom
Falou
De determinado mal
Que sempre perdura
Fruto,
Ou melhor, produto
Do mal da altura
Na sua constante
Posição
Vertical;
O eixo dos zê,
Perpendicular
Aos outros dois,
Fofocou,
Logo depois,
Infinitamente,
Que o logaritmo
Neperiano
Perdeu
O seu fatorial
Ritmo,
Pro decimal
Que, em evidência,
Deu
Uma de exponencial:
Se vangloriou
Total,
Integral,
Se achando,
Se considerando
O maioral.
E mais,
Que o tetraedro,
Parente
Não muito distante
Do icosaedro
Determinante,
Tentou
Aparecer,
Como jamais.
Ele freqüentou
Alta esfera,
As elites,
Um círculo excêntrico,
Egocêntrico,
Além dos limites
Da estratosfera.
E que o eneágono,
Tão somente,
Em progressão
Aritmética
E geométrica,
Cheio de maledicência,
Implicou,
De antemão,
Com o hexágono
Inscrito
E, eventualmente,
Circunscrito
Numa circunferência,
Indubitavelmente,
Antes uma figura
Exemplar,
Bi univocamente
Perfeita,
Direita,
Como sempre quis
Demonstrar;
Aí o apótema falou:
“A incógnita da questão
É se o perímetro
Não mudou
Nem um centímetro,
Já que saiu a cata
Da lemniscata
De Bernouilli,
Como se fosse mister
Que ela
Fosse o número pi
Ou, ao contrário,
Uma paralela
Qualquer
E enunciou
Um corolário,
Um comentário
Sobre o triângulo
Chamando-o de confuso
De obtuso,
Ou seja de obtusângulo.
O quadrado.
Enfastiado,
Com muita dor,
No denominador,
Derivado
De um cálculo
De má resolução
Expressou
Uma equação
Do segundo grau.
Que deixou,
Com desencanto,
Enfim, desencantado,
O pessoal,
Tendo em vista
O radical
b2-4ac,
Ser menor que zero
Portanto
Sem solução.
Coitado!

No dia 11 de janeiro de 2011 postei no meu blog Terror que matura que havia enviado para o guru que acusou recebimento. Tenho vários livros com dedicatória do Millôr quando ele, cá em Curitiba, esteve, em algum lançamento, a fim de uma tarde de autógrafos. Só me resta, ao lamentar a sua morte e, inevitavelmente, pensar o já conhecido e contumaz jargão: “Com tanto fdp para morrer, logo ele..." Fazer o quê?

Constatação XV
Deu na mídia: “Com um total de 2.669 reclamações, o Itaú Unibanco liderou o ranking das 30 empresas que mais geraram queixas no Procon-SP no primeiro trimestre de 2012, segundo informações divulgadas nesta segunda-feira, 2. Telefônica e Bradesco ocupam a segunda e a terceira posições com, respectivamente, 1.909 e 1.464 reclamações”. Data vênia, como diriam nossos juristas, mas Rumorejando acha que as reclamações ao Procon e ao bispo dão o mesmo resultado, ou seja, absolutamente em nada. E como poderão dizer os paulistas que apresentaram as queixas: viva “nóis”.

Constatação XVI
Não se pode confundir draga com droga, muito embora a gente fique numa draga depois de assistir o nosso time de futebol jogar uma droga e levar uma tunda do time adversário. Válido também quando os dois times jogam uma droga de partida, o que também deixa a gente numa draga pelo tempo perdido por ter ficado, inutilmente, esperando até o fim que o jogo melhorasse.

Constatação XVII (De mais um pseudo-soneto).

Melhor seria falar de açucena.

Eu gostaria de ganhar na megassena
Para poder sair do palco, de cena
Assim talvez escapar de uma safena
E poder viver mais de uma dezena.

A situação está virando uma Geena*,
A violência deixou de ser pequena
Na política só tem aparecido hiena
E não dá para solucionar com novena.

Os governantes com a mesma cantilena
Com tanta mazela que ocorre nessa arena.
Não se pode ficar tranqüilo, numa paz serena.

Crimes diários mais de uma centena.
Rio, São Paulo, Curitiba ou Barbacena
Em todo o país. Lamentável! Que pena!

*Geena =  substantivo feminino
1 local de suplício eterno pelo fogo; inferno
2 Derivação: por extensão de sentido.
sofrimento intenso; tormento, tortura (Houaiss).

E-mail: josezokner@rimasprimas.com.br
www.rimasprimas.com.br

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