quarta-feira, 30 de maio de 2012

CONSTATAÇÃO DE DOIS TEXTOS. NÃO MAIS QUE DOIS.


1º. Este me foi enviado por um grande amigo português, mestre em fantoches, lamentavelmente já falecido, chamado Francisco Esteves. O autor, também português, não tive a felicidade de conhecer. Vale a pena também entrar no Google para ver o que existe sobre o autor e seu maravilhoso texto.



HISTÓRIA DA MARIA-DOS-OLHOS-GRANDES E DO ZÉ PIMPÃO

Canuto Jorge Glória.



Maria-dos-olhos-grandes tinha uns olhos grandes, grandes, que pareciam azeitonas. Maria-dos-olhos-grandes tinha uns olhos de ver mundo.

Maria tinha umas tranças pequeninas, bem espetadas, pareciam duas antenas. Maria tinha umas tranças bem espetadas de ouvir mundo.

Maria tinha um vestido que era de todas as cores, mas uma de cada vez. Maria tinha um vestido com todas as cores do mundo.

Maria tinha um amigo muito giro, muito vivo, moço da rua e da gente. Era amigo a valer. Maria tinha um amigo. Chamava-se ZÉ PIMPÃO. Zé Pimpão era miúdo de olhos piscos gadelhudo. Zé Pimpão sabia o mundo. Zé Pimpão tinha nos olhos as viagens que sonhou.

Zé Pimpão tinha nos olhos a cor do sol e do mar. Zé Pimpão tinha nos pés uns pés grandes e descalços. Zé Pimpão com os pés nus sentia melhor a rua.

Numa manhã quente, quente, com o sol bem descarado, com um sol de passear, assobiou Zé Pimpão para apressar a Maria. Maria veio, deu-lhe a mão, foram-se os dois a cantar.

Zé Pimpão levou Maria ver o mundo muito longe. Zé Pimpão levou Maria ver os dois lados do mundo.

Maria-dos-olhos-grandes não podia acreditar que o mundo era assim. Maria-dos-olhos-grandes julgava que o mundo mundo era só o seu jardim.

Zé Pimpão estava contente. Mas não sabia Maria que depois do seu jardim... Mas não sabia Maria que o mundo era muita gente?

Maria-dos-olhos-grandes pensava que o mundo a sério era a tia Joaquina, era

O tio Salustrião, era o pai e era a mãe, mais o primo pequenino e, é claro, o Zé Pimpão.

Maria-dos-olhos-grandes via o mundo pequenino.

E Zé Pimpão mais sizudo, mostrou então à Maria que num dos lados do mundo havia prédios bem altos e mais jardins floridos, muita luz e muitas cores.

Zé Pimpão levou Maria do lado de cá do mundo. Foram saltitando sobre as pedrinhas na lama, vendo cortinas-jornais, telhados de papelão e miúdos, reinadios, amigos do Zé Pimpão que nunca olharam o céu, pois vêem o sol nos charcos, pois vêem o sol no chão.

Com uns olhos tristes tristes, Zé Pimpão levou Maria do lado de lá do mundo, do lado que não se vê, onde há barracas escuras, feitas nem sabe de quê e miúdos a chorar e onde os brinquedos são pedras e a lama são os jardins. Zé Pimpão levou Maria do lado de lá do mundo.

Maria viu e reviu um mundo novo tão velho que precisa de aprender, que precisa que os meninos o ensinem a crescer, para fazer um mundo novo, um mundo velho tão novo.

Quando voltaram à noite, Maria-dos-olhos-grandes, com uns olhos de ver mundo, trazia o mundo nos olhos, para dizer ao Zé Pimpão:

Zé Pimpão, vamos fazer que haja um só lado do mundo, ou só o lado de cá, ou só o lado de lá.

Zé Pimpão, eu queria o mundo com todos do mesmo lado. Se não há jardins para todos, vou dividir os canteiros. Se os canteiros não chegarem, uma flor para cada um. E se as flores forem poucas, há pétalas, enfim, há cheiro, mas todos terão igual.



2º. Um conto escrito nos idos tempos do Badep...

JUSTA CAUSA

Juca

Noite mal dormida. Levantou-se com o coração apertado. Com a mesma sensação que havia ficado quando pegou uma segunda época na faculdade. Na fábrica, a reunião estava marcada para às oito horas. O Diretor-Presidente havia ficado possesso: “Onde já se viu”, esbravejara. “Em toda a vida da empresa, jamais aconteceu algo parecido. Pagar multa pelo atraso na entrega no pedido ? Era o fim! Vencer a licitação, já não tinha sido fácil. Dessa vez, até fomos obrigados a nos compor com a concorrência”. Houvera realmente atraso na fabricação das peças, atraso que, pelos seus cálculos, só poderia ter ocorrido na seção de usinagem. Entretanto, não atinara, ainda o porquê. Desde que fora eleito Diretor Técnico, na última Assembléia Geral Ordinária, havia melhorado sensivelmente a produtividade da indústria. Com isso, o lucro da empresa havia crescido em vinte e dois por cento. Vinte e dois por cento! Tal percentual possibilitara um giro prolongado pela Europa e Estados Unidos dos Diretores Presidente e Financeiro com as respectivas.

No chuveiro, o seu mau humor aumentou. Logo agora que o vizinho com cara-de-lua do apartamento de cima resolveu tomar banho! Iniciou, com ele, aquela luta surda e silenciosa, agindo nas torneiras quente e fria à medida que o cara-de-lua fazia o mesmo. Não tinha fome, embora sentisse um vazio no estômago. “Deve ser o excesso de álcool da festa de ontem”. Sentia que passara da conta. Também com aquela conversa chata dos maridos chatos, das amigas chatas, da chata da mulher. Olhou para ela, enquanto se vestia, cuidando para não acordá-la. Ainda não estava na hora dela se levantar, pois ela só o faria às sete. E “sem precisar de despertador”. Faria o café, “porque você não deve fumar em jejum, querido”. Dessa vez, tomaria um café no bar da esquina. Tornou a olhar a mulher. Dormia, mostrando parte do corpo. Pena que nunca conseguiram se entender. Já se havia passado um bom tempo que dormiam em camas separadas. Ela assim havia sugerido desde que parou de procurá-la, o que a deixou bem satisfeita. Jamais participara sem aquele ar de sacrifício e sofrimento. Ele arranjou amantes. Não faltou quem fosse contar a sua mulher. Mas ela jamais tocou no assunto. Assim, o infeliz parecia ele. Afinal, o seu sonho, quando solteiro, sempre fora ter a esposa-amante-companheira, como lucubrava nos papos com os amigos. Por fim, acabou se acostumando, com ou sem amantes esporádicas. Porém, no fundo, preferia a idealizada esposa-amante-companheira...

Chegaria às sete horas na fábrica. Desejara estar lá antes de todos. Talvez estranhassem vê-lo a tal hora, pois o seu horário habitual era às oito. Precisava, antes de mais nada, discutir com o chefe de do Setor de Produção o que ocorrera na seção de usinagem para que resultasse em tamanho atraso. Não poderia deixar nenhuma pergunta dos outros diretores sem resposta. Na festa da noite anterior, o Diretor Financeiro já lhe havia falado sobre os grandes e sensíveis prejuízos da empresa.

“-Amanhã, na reunião, veremos este assunto”, mandando-o, mentalmente, às favas. Não gostava do Diretor Financeiro. Como acontece em muitas empresas familiares, ele era genro do Diretor Presidente. Tinha um curso de Direito e fazia questão que o chamassem de doutor. Entendia de economia e finanças tanto quanto de advocacia e vice-versa. Ainda bem que o contador agüentava a barra...

Acabou chegando na fábrica depois das sete, por causa do trânsito. Dirigiu-se de pronto à sala do responsável pelo Setor de Produção. Foi direto ao assunto, sem ao menos cumprimentar.

“-Bem, doutor, não pude fazer nada, pois o Arlindo não veio trabalhar dois dias seguidos. Eu bem que lhe avisei que precisamos preparar outro para trabalhar no torno mecânico”.

Sabia que o chefe do Setor de Produção estava certo, mas não queria admitir. “-Isto agora não vem ao caso”, respondeu secamente. Perguntou da razão das duas faltas do Arlindo e porque não o avisara. O chefe disse que não sabia direito a razão e que tinha pensado que não havia pressa, como das vezes anteriores, na entrega das peças. Por isso, é que não tinha avisado.

“-Pois deveria saber e avisar. Mande-o chamar”.

“-Ele avisou que vai chegar um pouco mais tarde; ele foi pegar cartão de consulta médica no INSS”.

“-Ele está doente ?”

“-Diz que tá. Ele avisou que ia no Instituto às cinco e meia para pegar lugar na fila para marcar consulta. Daqui a pouco, ele tá batendo por aqui”.

“-Pois traga ele aqui na minha sala tão logo ele chegue”. Discutiu ainda alguns pormenores sobre o trabalho do dia e se dirigiu a sua sala. Encontrou-se, na passagem, com o Diretor Administrativo.

“-Por que essa cara de poucos amigos ?” Sorriu amarelo. “-Eu sou assim mesmo”, respondeu. Simpatizava com o Diretor Administrativo. Dos diretores, era o que mais se preocupava com o aspecto social dos operários. Havia, recentemente, concluído um curso de “Maior produtividade com a melhora das Relações Humanas no Trabalho”. Voltara cheio de idéias na cabeça: refeitório, cooperativa, sala de recreação, assistência escolar, auxilio médico e outros mais. Suas idéias esboroaram-se com o não do Diretor Presidente, sob o pretexto de que nada adiantaria. “-Essa gente nunca reconhece o que se faz por ela”. Com insistência nas suas ponderações o Diretor Administrativo acabou ouvindo a pergunta: “-Não vai querer também que o pessoal participe dos lucros da empresa, não é!?”

Na reunião, o Diretor Presidente deu início à pauta dos trabalhos.

“-Pela primeira vez na história dessa empresa, tivemos que pagar multa contratual pelo atraso no fornecimento de um pedido de peças. Com a palavra o nosso Diretor Técnico”.

“-Houve queda de produção numa série de atividades decorrentes do atraso na seção de usinagem. É que o torneiro faltou”.

“-E por que não puseram outro ?”, quis saber o Diretor Financeiro

“-Não existe outro que saiba trabalhar no torno. É muito difícil encontrar um bom torneiro”.

“-Quer dizer que se o cidadão morre, vamos ter que parar a indústria ?” Eta cara boçal. Se o contador morrer quero ver quem te fará os esquemas financeiros, seu genrinho de meia-tigela, pensou.

“-E qual a razão da falta ?”, perguntou o Diretor Presidente, enquanto escrevia nos seus apontamentos: providenciar na Seção de Pessoal, a contratação de mais um torneiro e

anunciou, aos demais, sua resolução e de colocá-lo em treinamento, até pagando hora extra, se fosse o caso.

“-Vou saber agora”. E pedindo licença voltou à fábrica. Felizmente, encontrou o Arlindo trabalhando no torno.

“-Você anda doente, Arlindo ?”, perguntou após um cumprimento entredentes.

“-Apanhei friagem nas costas, doutor”, respondeu com os olhos voltados para o chão. Por que essa gente não nos encara e quando o faz é sempre com ar desconfiado ?, pensou.

“-É. Realmente este inverno não está para brincadeira. Por isso, você faltou dois dias seguidos na semana passada ?”

“-Bem, doutor, não foi só por isso. Para o senhor dá pra contar a verdade: A friagem eu peguei na sexta-feira. Na quinta, quando acordei tava aquele frio de rachar com aquela geada e tudo. A mulher, em vez de pular da cama e ir fazer o café, ficou na cama mais um pouquinho. Bem, o senhor sabe como é que a gente acorda de manhã. Encostei na mulher que estava bem quentinha. O resto, o senhor já sabe”.

“-Está bem”, cortou. “Depois a gente volta a falar sobre o assunto”.

Retornou à sala de reuniões. Interromperam uma discussão e voltou-se para ele a espera da explicação.

“-O torneiro apanhou uma friagem nas costas e foi por isso que ele não veio trabalhar. Tenho planos para recuperar o prejuízo e gostaria de expor ainda na pauta de hoje, Presidente”.

“O resto o senhor já sabe”, ficou a lhe martelar na cabeça...

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