quarta-feira, 13 de agosto de 2014

RUMOREJANDO

PEQUENAS CONSTATAÇÕES, NA FALTA DE MAIORES.
Constatação I
O obcecado
Achou
Que chegou
No pináculo da glória.
A vizinha,
De cor doiradinha,
Do apartamento
Ao lado,
Que, em nenhum momento,
Nunca ligou
Pra sua oratória,
Considerada irredutível,
De convicção
Irremovível,
Dando-lhe um largo sorriso
Que até mostrou
O incômodo siso.
Ele interpretou
Tão-somente
Como uma promessa,
À curto prazo,
Factível
Bem depressa.
Portanto, exequível
Aí, ele deu azo*
A sua fértil imaginação,
Mas tudo ficou só nisso
Fora, apenas, uma boa ação,
Um cumprimento educado.
E ele, agora,
Sem compromisso,
Como sempre ansiado,
Agoniado,
Mas esperançado,
Como toda hora,
Todo o dia,
Teve que se conformar
E baixar
Em outra freguesia.
Coitado!
*Azo = Substantivo masculino.
Motivo, causa; oportunidade. Sinonímia = Ver ensejo (Houaiss).
Constatação II (Não se trata de querer dar uma de crítico. É apenas uma sugestão de quem gostou das películas).
La mirada invisible, e Um amor de Borges, filmes dos hermanos. Vale a pena assisti-los. Também vale a pena os uruguaios Mal dia para pescar, El baño del Papa, El viaje hace el mar. É possível baixá-los na internet. De nada!
Constatação III
Não se pode confundir riso com risco, até porque, se um dos familiares estiver pregando um prego e der uma martelada no dedo, suscitando um riso de algum parente, este, estará correndo alto risco. A recíproca não é verdadeira, já que não é possível correr risco com um riso, sorriso, gargalhada ou coisas desse jaez, exceto se for o riso, sorriso, etc. de um fantasma. Fantasma? Vige!
Constatação IV (De diálogos com charminho).
-“Eu gosto muito de você
E, até hoje, eu não sei por que”.
-“Eu também não sei.
Não seria por decreto-lei?”
Constatação V (Quadrinha de seis, portanto “sextinha”. Não confundir com as sextilhas do mestre Paulo Roxo Barja).
Era tão preguiçoso,
Tão ocioso,
Tão mandrião
Que até um permitido assédio
Era feito por intermédio
De uma procuração.
Constatação VI (De uma rima só de duas, digamos, estrofes).
No mundo, os bons são tão poucos em relação aos maus,
Que eles nem figuram na curva de Gauss.
Constatação VII
Quando o nosso emocionante hino
É cantado, de cor, do começo ao fim,
Você não acha um fato tão genuíno
Como o gênio da lâmpada do Aladim?
Constatação VIII
Todo candidato, potencialmente, será um esquecido de suas promessas. Se eleito, deixa de ser potencialmente...
Constatação IX
O tecido social
Tá um farrapo,
Tá um trapo
Institucional.
Constatação X
O insaciável
Obcecado,
Inveterado,
É provável
Que sossegasse
Se encontrasse
Uma obcecada,
Determinada
E desprendida
Sem ter uma recaída*.
*Não ficou claro qual dos dois, ou ambos, poderiam ter uma recaída. Se alguém tiver essa informação, por favor, comentários no blog. Obrigado.
Constatação XI (Passível de mal-entendido).
Essa noite tive um presságio
Que faria um almejado estágio
Nos teus braços e nos demais
Que seriam guardados nos teus anais.
Constatação XII
O arauto da democracia,
Obnubilado pela ganância
Não dá a menor importância
Ao cometer qualquer aleivosia.
Constatação XIII (De pequenas comparações por falta de maiores e melhores. Qualquer semelhança com o meu time, o Paraná, é mera coincidência).
Luta renhida,
De qualquer jeito,
Pra não cair
Pra terceirona
É como a gata sair,
De modo suspeito,
Malvestida
Estilo maria-mijona*.
*Maria-mijona = “Mulher, moça ou criança cujo vestido ou saia tem aspecto deselegante, desajeitado por ser mais longo que o normal” (Aurélio).
Constatação XIV
Certa vez, quando das inscrições para a Olimpíada de Matemática das Escolas Públicas, a diretora acadêmica da Olimpíada de Matemática, professora Suely Druck, disse que o grande objetivo da competição é "detectar a criatividade, a perseverança de um aluno em lutar para resolver um problema, a vontade que ele tem de aprender". Dúvida crucial: Será que determinados deputados desenvolveram sua – deles – criatividade, resolvendo problemas de matemática? Ou tudo leva a crer que já cedo eles adotaram o esquema, também execrável da cola? Quem souber a resposta, por favor, comentários no blog. Obrigado.
Constatação XV (E já que falamos no assunto...)
A classe política
Depois de se eleger
Vira gente vívida*,
Perde a autocrítica
E costuma esquecer
Que promessa é dívida.
*Vívida = “Que tem vivacidade”.
Constatação XVI (Alguns exemplos do meu livro 150 Sonetos & 1 Sonetão).

 Ode à erva-mate e à Mulher
 Ou à Mulher e à erva-mate*

Quando Deus criou o Homem
E viu aquela profusão de saliência,
Pareceu-Lhe faltar competência,
A obra estava mais pra lobisomem.

Resolveu tomar uma cuiada
De uma bebida bem amarga;
Deu uma sorvida bem larga
Pra não mais fazer trapalhada.

A inspiração veio em seguida
E surgiu uma figura querida,
O que se fazia mister.

Era alguém com muita harmonia,
A quem não faltava sabedoria.
E Deus havia criado a Mulher.

 *(Dedicado a Brigite Bardot, defensora dos animais, e que participou do filme, de Roger Vadin, “E Deus criou a mulher”).

A dançarina surrealista

Ela dançou um bolero,
Mas não eram dois pra cá
Tampouco dois pra lá
E sem um ensaio severo.

Foi um bem mais complicado.
Era o Bolero de Maurice Ravel
Como naquele filme tão cruel,
Cujo nome não estou lembrado*.

Ela improvisava os passos
Sem repetir quaisquer pedaços
Sempre com graça e talento.

De repente, pareceu levitar.
De fato, no forro ela foi parar.
E não foi só por um momento.

*Na feitura do soneto, não lembrei o nome. Trata-se de Retratos da Vida, no original Les uns et les autres, um filme do francês Claude Lelouch.

  Pensamentos de um incentivo patriótico*
Teu ar de menina que está sozinha no mundo
Enterneceu até a raiz de meus brancos cabelos.
Do coração nem falar, um vazio profundo.
Talvez por não estreitar ainda mais nossos anelos.

Querer te apertar também nos meus braços.
Beijar teu pescoço, teus olhos, teus lábios.
Encurtar nossas distâncias sem deixar espaços
Sem arrependimentos, culpas ou ressábios.

Acariciar tuas coxas com lubricidade,
Sentindo teu arfar vibrante se acelerando
E eu esquecendo a minha provecta idade.

Devagar te desnudando até a última peça
E você no meu ouvido balbuciando:
“Eia! Avante! Coragem! Vamos nessa!”

*(Do mesmo livro antes citado e um exemplo de soneto erótico. Na realidade, o livro contém cerca de 40% de sonetos eróticos que Rumorejando explica e/ou justifica que, na provecta idade que este assim chamado escriba se encontra (77 anos) a gente apenas recorda...)

       Investimento rentável*

Tenho uma certeza, até uma fé inquebrantável
Que eu também sou um cara desfrutável
Com comportamento irreprochável;
Mau-caratismo, comigo, é impensável.

Minha atitude com elas é sempre louvável
Eu as trato com muito carinho inexpugnável.
A maledicência de tantos não me é perturbável
Que eu considero algo odioso, algo abominável.

Acontece que sou adepto do reciclável
O que me induz constantemente ao renovável
E para o meu ego considero assaz saudável.

Aí, as levo a um motel para um evento memorável
E, claro, para um amor digno numa cama confortável
Evidentemente, desde que o meu desempenho seja viável.

*Tentando mostrar a riqueza do nosso vocabulário, contando um fato com a rima em “avel”.

 Receita de comportamento*

Ela sempre se destacava
No meio da sua patota.
Recebia dos meninos pelota
E ela, tímida, ruborizava.

Na cadeira de português, boa nota
Sem problema para o diploma.
Falava um ou outro idioma;
A turma a achava poliglota.

Perguntaram o que fazia para ser brilhante
E a resposta veio no mesmo instante:
“Gosto de fazer exercícios de matemática”;

“Também de ler bons autores”;
“Cultivar excelentes valores”;
“E em tempo algum ficar estática”.

*(Para meus netos. E para as demais pessoas que queiram seguir o contido no soneto, porém sem querer fazer proselitismo, pois Rumorejando acha que todo prosélito é um chato).

Tá na hora de perder a paciência*

Perdura uma grave pendência
E isso não é maledicência.
Queremos saber se há solvência
Na Saúde, sempre sem assistência.

Também na Educação, sem subsistência,
E na Segurança, que está uma indecência.
Talvez se a corrupção não fosse ciência
Aplicar-se-ia verbas com proficiência.

Isso apregoado, já perdida a paciência,
Não se deve permitir a permanência
Daqueles que já mostraram incoerência.

*Utilização da rima em “ência” e tendo em vista a proximidade das eleições com o execrável horário político, quando se verificam acusações, baixarias, empulhações, enrolações e, posteriormente, com aqueles que se elegeram, com as fraudes que fatalmente advirão, dará para entender porque o candidato investiu tanto para conseguir se eleger. Vige!

  Biografia de mim

Não sou um sujeito idólatra,
Não creio em feiticeiros ou bruxos,
Mas numa erva-mate, sou chimarrólatra,
Que considero um dos meus poucos luxos.

Os outros são os meus cachorros
Gente muito fina e educada.
Eles não cometem desaforos
De me acordar na madrugada.

No mais, sou um cara pacato,
De boa índole, assaz cordato,
Caseiro e bem comportado.

Alguém que age diferente
Acha que eu vivo descontente
Ao me ver, deve pensar: “Coitado!”

     O beijo

Ficar só no beijinho
Inda mais no selinho
É falta de carinho
É um descaminho.

É um imenso
Contrassenso,
Que deixa o cara tenso,
Agastado, infenso.

É, também, a mais pura
Falta de lisura,
Malévola urdidura.

Por isso é recomendável,
Pra ter mente saudável,
Beijo de língua amável.*

*Beijo de língua amável? Vige! Beijo de língua só pode ser libidinoso, mas daí, não daria certo a rima. Perdão, leitores.

RICOS & POBRES
Constatação I
Rico recebe convites para comparecer a festas, “a fim de abrilhantá-las”; pobre recebe convite para comparecer ao Seproc – Serviço de Proteção ao Crédito, “a fim de tratar de assunto de seu interesse”.
Constatação II
Rico sente fadiga; pobre é indolente.
Constatação III
Rico tem cabelereiro; pobre, barbeiro.
Constatação IV
Rico é arrojado; pobre, é caradura.
Constatação V
Rico caminha para se exercitar; pobre, por falta de opção, pratica o pedestrianismo.
Constatação VI
Secretário do Tesouro de país rico nunca tem trocado; de país pobre nem trocado tem.
Constatação VII
Rico fica inebriado; pobre, no porre.
Constatação VIII
Rico tem o coração mole; pobre, é frouxo.
Constatação IX
Jogador rico dá assistência; pobre, dá passe errado.
Constatação X
Empresa rica faz publicidade; empresa pobre, reclame.

E-mail: josezokner@rimasprimas.com.br
Site: www.rimasprimas.com.br

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